Segurança e regulamentação

As criptomoedas podem perder-se para sempre?

23/01/2026 15:18

As criptomoedas podem perder-se para sempre?

No mundo cripto, não existe o botão "esqueci-me da palavra-passe". Descobre como se perdem milhares de milhões na blockchain e o que deves fazer hoje mesmo para que o teu património digital fique a salvo para sempre. Sê o teu próprio banco, mas com um plano sem falhas.

Existe um aterro sanitário em Newport, Gales, que vale mais de meio milhão de dólares.

Lá, algures sob toneladas de lixo em decomposição e sucata, jaz o disco rígido de James Howells com 8.000 Bitcoin.

James não foi vítima de hackers nem de uma burla sofisticada.

Simplesmente, deitou fora a peça de hardware errada enquanto arrumava a secretária.

A história de James é o espelho do paradoxo cripto: embora a tecnologia em si seja matematicamente inexpugnável, os teus ativos só estão tão seguros quanto o teu momento de maior distração.

Se entraste no mundo cripto porque queres o controlo total das tuas finanças — parabéns, conseguiste-o.

Mas esse controlo traz uma responsabilidade absoluta.

Não há um centro de atendimento, não há fundos de garantia de depósitos e não existe o botão "anular".

Neste blog, vamos analisar o fenómeno da perda digital e ensinar-te a não te tornares em mais uma estatística triste da blockchain.

Porque é que o que se "perde" em cripto desaparece para sempre?

No mundo físico, se perderes a carteira, alguém pode encontrá-la e devolvê-la. Se um banco cometer um erro, uma transação pode ser revertida.

No mundo blockchain, o dinheiro não "desaparece" no sentido de deixar de existir.

Ele permanece no endereço, perfeitamente visível para qualquer pessoa com ligação à Internet.

Tudo se baseia na tua chave privada.

Imagina que as tuas criptos estão trancadas num cofre transparente no meio da cidade: toda a gente as vê, mas apenas a tua chave única o pode abrir.

O problema é que, neste mundo, não existem serralheiros.

O código deste cofre é tão longo e complexo que nem os computadores mais potentes do mundo o conseguiriam adivinhar, mesmo que tentassem durante milhares de milhões de anos.

Quando dizemos que perdeste as tuas criptos, estamos a dizer que perdeste a prova matemática de que elas te pertencem.

Sem essa prova, és apenas um observador da tua própria riqueza.

As catástrofes cripto mais famosas (para não as repetires)

Para entender a gravidade da situação, basta olhar para a escala das perdas. Estima-se que cerca de 3,7 milhões de Bitcoin (quase 20% da oferta total!) se perderam para sempre.

Stefan Thomas e o papel perdido

Um programador de São Francisco tem 7.002 Bitcoin num disco rígido IronKey. Ele perdeu o papel onde escreveu a palavra-passe. O dispositivo só permite 10 tentativas antes de se autodestruir (apagar os dados). Stefan já gastou 8 tentativas. Atualmente, uma fortuna imensa dorme naquele disco que ele já não se atreve a tocar.

O mistério da QuadrigaCX

Gerald Cotten, fundador da maior plataforma de câmbio canadiana, morreu levando consigo as palavras-passe das "cold wallets". Mais de 190 milhões de dólares dos utilizadores ficaram inacessíveis porque ele era o único que detinha os acessos.

Como evitar perdas e onde se escondem as armadilhas

Se pensas que "ter cuidado" é suficiente, estás enganado. Perder cripto é frequentemente o resultado de uma série de pequenos passos, aparentemente lógicos, que terminam em catástrofe.

Enviar para a rede errada

É um dos erros mais comuns. Queres enviar USDT para a tua exchange.

A exchange dá-te um endereço que só aceita a rede Ethereum (ERC-20).

Tu, querendo poupar em taxas, escolhes a rede BSC (BEP-20).

O resultado? A transação é confirmada na blockchain, mas a exchange não vê o depósito porque os seus sistemas não monitorizam essa rede.

Falta de cuidado com a seed phrase

As tuas 12 ou 24 palavras são tudo. No entanto, muitos tratam-nas como se fossem a password da Netflix.

No momento em que tiras uma foto com o telemóvel a essas palavras, elas estão comprometidas.

Qualquer aplicação com acesso à tua galeria pode, teoricamente, "lê-las".

Qualquer cópia na nuvem torna-as vulneráveis a um acesso indevido ao teu e-mail.

A solução: Em vez de papel e fotos, usa metal. Existem placas de aço (steel wallets) onde se gravam as palavras. Sobrevivem a incêndios, inundações e até ao peso de uma escavadora.

A imagem mostra um homem em frente ao computador, preocupado com as suas criptomoedas.

Smart contracts que não são assim tão "smart"

No mundo DeFi, "assinas" aprovações para contratos inteligentes. Os hackers criam frequentemente páginas falsas de airdrops. Ligas a tua carteira, clicas em "Claim", mas na verdade assinaste uma permissão que permite ao contrato retirar todas as tuas criptos desse endereço a qualquer momento.

Introduzir endereços manualmente

Em cripto, um erro de dactilografia custa milhões. Os endereços são desenhados para serem difíceis de ler.

Um zero em vez da letra O, ou enviar Bitcoin para um endereço de Ethereum, pode resultar numa perda permanente.

Nunca escrevas um endereço manualmente. Usa copiar e colar, e verifica sempre os primeiros 4 e os últimos 4 carateres.

Existe forma de salvar alguma coisa?

Vamos desmistificar um mito perigoso. Se perdeste o acesso ou enviaste cripto para o sítio errado, vais encontrar na internet falsos especialistas que prometem a recuperação.

São serviços de "crypto recovery" que farão tudo menos devolver-te o dinheiro.

Vão pedir-te "taxas de software" ou depósitos e, assim que pagares, bloqueiam-te.

Na blockchain pública, se não tens as chaves ou se a transação foi confirmada, não há forma de voltar atrás.

A única exceção: se enviaste os fundos para uma exchange (eles têm as chaves e talvez possam ajudar) ou se fores vítima de um ataque onde os fundos são rastreados até uma exchange e congelados pela polícia.

Porque é que isto não é uma "varinha mágica"?

Se um hacker transferir as criptomoedas para os chamados "mixers" (serviços que misturam transações para apagar o seu rastro) ou as enviar para uma bolsa descentralizada (DEX) que não tem um proprietário central, o rastro perde-se e ninguém as consegue congelar.

Contratar agências que rastreiam cripto roubado custa, frequentemente, mais do que o valor da própria quantia subtraída.

Em última análise, as exchanges não estão legalmente obrigadas a corrigir os teus erros. Elas fazem-no como um serviço de cortesia e não como uma obrigação.

Mas se o hacker usar "mixers", o rastro perde-se definitivamente.

Legado digital: O que acontece quando já não estiveres cá?

A maioria de nós compra cripto com uma visão de futuro — para os filhos ou para uma reforma segura.

Se amanhã partires inesperadamente e as tuas chaves privadas estiverem apenas na tua cabeça ou num papel que ninguém conhece, as tuas criptos tornam-se capital morto.

  • Carta de instruções: Nunca escrevas a seed phrase diretamente num testamento (podem tornar-se públicos). Deixa uma carta à parte explicando onde está a carteira física e a placa de metal.
  • Multi-sig: Um método avançado onde a chave é "dividida". Por exemplo, precisas de 2 em 3 partes para abrir a carteira (uma tens tu, outra o cônjuge e outra um advogado).

A blockchain não perdoa, mas tu podes ser infalível

Voltando à pergunta: "Posso perder as minhas criptos para sempre?"

Agora já sabes que é mais fácil do que pensavas. No entanto, também sabes que as ferramentas de proteção existem e são simples.

Cripto oferece-te a oportunidade de sair de um sistema que monitoriza e cobra constantemente pela tua existência. Mas essa saída paga-se com vigilância.

Sê meticuloso: Verifica duas vezes cada passo ao enviar cripto para outros endereços.

Guarda a tua seed phrase: Trata-a como se a tua vida dependesse disso, porque, em sentido digital, a tua vida financeira depende mesmo.

O mundo cripto não perdoa erros, mas recompensa generosamente quem aprende as regras do jogo.

Não sejas como o James Howells. Não deixes que a tua riqueza acabe num aterro digital.

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Melani Grubić Mikulić

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