Bitcoin: um ativo para todos ou um privilégio para poucos?
O Bitcoin é transparente por design, e é precisamente essa transparência que alimenta o mito das baleias que detêm quase tudo. Os números são reais, mas a interpretação quase nunca o é. Descubra quem detém realmente o Bitcoin.
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Um dos mitos mais comuns no mundo das criptomoedas soa mais ou menos assim: «O Bitcoin é apenas para os ricos, um punhado de abastados detém quase tudo.» Também circula um número concreto: 90 % dos Bitcoin nas mãos de 1 % dos proprietários. Parece alarmante. Mas será verdade?
A realidade está longe de ser a preto e branco, e é precisamente por isso que a resposta é interessante.
O que diz a blockchain?
O Bitcoin é transparente por design. Ao contrário das contas bancárias, cada endereço e cada transação são publicamente visíveis na blockchain, uma espécie de livro-razão digital que ninguém controla, mas que todos podem ler. É precisamente esta abertura que nos permite ver quem detém o quê.
E os dados, à primeira vista, parecem preocupantes. Dos 21 milhões de Bitcoin que poderão alguma vez existir, até hoje foram minerados cerca de 19,6 milhões, o resto ainda aguarda ser extraído nos anos que aí vêm. Desses 19,6 milhões, apenas 1 % de todos os endereços detém nada menos do que 17,3 milhões de Bitcoin. Um número que dá a impressão de que o jogo já terminou.
Mas é aqui que surge o problema fundamental: os dados estão corretos, a interpretação não está.
Um endereço não é uma pessoa
A maior armadilha na leitura dos dados da blockchain é assumir que um endereço corresponde a um único proprietário. Na realidade, isso quase nunca é o caso.
As grandes exchanges de criptomoedas recebem Bitcoin dos seus utilizadores e guardam-no em endereços centralizados, tal como um banco guarda o dinheiro dos seus clientes num cofre.
Uma única exchange pode assim armazenar centenas de milhares de BTC num ou em poucos endereços, mas nenhum desses Bitcoin pertence à exchange. Todos eles pertencem aos utilizadores que os depositaram.
O mesmo se aplica aos ETF de Bitcoin, fundos de investimento disponíveis nas bolsas americanas desde 2024, que em pouco tempo atraíram mais de 120 mil milhões de dólares.
Por detrás desses endereços estão milhões de investidores comuns que compraram uma participação no fundo, por vezes por apenas algumas dezenas de euros.
Quando temos isto em conta, o quadro muda completamente. Um único endereço com uma quantidade enorme de Bitcoin não nos diz nada sobre quantas pessoas são realmente proprietárias. É por isso que a afirmação de que «1 % dos endereços detém quase tudo» é tecnicamente correta, mas profundamente enganosa como conclusão.
Quem detém realmente o Bitcoin?
A River, uma empresa financeira americana especializada em Bitcoin, realizou uma das análises mais completas sobre a distribuição do Bitcoin até à data, combinando declarações públicas, etiquetagem de endereços e investigações on-chain.
Segundo as suas estimativas de agosto de 2025, os particulares detêm cerca de 65,9 % da oferta total de Bitcoin (13,83 milhões de BTC). Os fundos e ETF controlam aproximadamente 7,8 %, as empresas 6,2 % e os governos 1,5 %.
Em outras palavras, a maioria dos Bitcoin, dois terços, continua nas mãos de particulares.
Baleias, tubarões e camarões
A comunidade crypto desenvolveu uma taxonomia colorida dos detentores com base no tamanho das suas posições:
- Baleias: mais de 1.000 BTC por endereço
- Tubarões: entre 500 e 1.000 BTC
- Camarões: menos de 1 BTC
Os 100 primeiros endereços detêm conjuntamente cerca de 2,9 milhões de BTC, o que representa perto de 14,7 % de todos os coins em circulação, principalmente reservas de exchanges, fundos institucionais e grandes investidores privados.
Mas a tendência está a mudar. As carteiras com um saldo entre 100 e 1.000 BTC cresceram significativamente, passando de 3,9 para 4,76 milhões de BTC no espaço de um ano, o que sinaliza uma distribuição mais alargada para instituições mais pequenas e particulares abastados.
O caso Satoshi Nakamoto
Nenhuma conversa sobre a concentração do Bitcoin está completa sem mencionar o seu fundador anónimo. Estima-se que Satoshi Nakamoto detenha entre 750.000 e 1,1 milhão de BTC distribuídos por cerca de 22.000 endereços antigos, nenhum dos quais foi movimentado desde o nascimento do Bitcoin.
Esses fundos não existem na prática no mercado. Muitos analistas consideram-nos definitivamente perdidos.
Quão raro é possuir 1 Bitcoin inteiro?
Este é talvez o dado mais surpreendente de todos.
Apenas cerca de 0,18 % dos detentores de criptomoedas possui pelo menos um Bitcoin inteiro, menos de dois em cada mil investidores crypto.
Estima-se que menos de um milhão de carteiras detenha 1 BTC ou mais. Tendo em conta que a oferta máxima de Bitcoin é de 21 milhões e que já foram minerados cerca de 19,6 milhões, um Bitcoin inteiro torna-se cada vez mais raro, mas não inacessível.
