Da teoria à prática: como a blockchain torna possível a negociação de eletricidade
Um vizinho vende o seu excedente de energia solar a outro vizinho, e a blockchain regista e liquida automaticamente a transação. De Brooklyn à Austrália, a blockchain já impulsiona a negociação P2P de eletricidade em comunidades reais. Veja como a tecnologia funciona e que obstáculos enfrenta.
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Imagine um vizinho com o telhado coberto de painéis solares que, no verão, produz mais eletricidade do que aquela de que precisa.
Em vez de praticamente "oferecer" esse excedente à rede elétrica, ele vende-o a si, diretamente, sem intermediários, a um preço acordado quase em tempo real.
Parece ficção científica, mas este tipo de sistemas de negociação entre pares (peer-to-peer, ou P2P) de eletricidade já está a ser testado em todo o mundo, e a blockchain é a tecnologia que torna isso possível.
Porque é que o setor energético precisa da blockchain
A rede elétrica tradicional está construída em torno da ideia de que um pequeno número de grandes produtores envia eletricidade para milhões de consumidores.
Esse modelo está a mudar: cada vez mais habitações têm painéis solares, baterias de armazenamento de energia e contadores inteligentes que medem o consumo minuto a minuto.
De repente, cada casa pode ser simultaneamente produtora e consumidora, no setor utiliza-se o termo "prosumidor" para descrever este novo papel.
O problema é que a infraestrutura existente não foi concebida para milhares de pequenas transações descentralizadas entre vizinhos.
É aqui que entra a blockchain: uma base de dados distribuída que permite registar cada transação, por exemplo, "vendi 2 kWh ao meu vizinho às 14h32", de forma transparente, imutável e sem necessidade de uma autoridade central.
Como isto funciona na prática
O sistema costuma funcionar assim: um contador inteligente regista quanta energia uma habitação produziu e quanta consumiu.
Um contrato inteligente (smart contract) na blockchain compara automaticamente a oferta e a procura e executa a transação assim que encontra um comprador e um vendedor compatíveis, tudo isto sem burocracia e sem ter de esperar pela fatura mensal do fornecedor de energia.
O preço forma-se muitas vezes de forma dinâmica, de modo semelhante à negociação em bolsa: num dia de sol, quando o excedente de energia é elevado, o preço desce; quando a procura aumenta ao fim da tarde, o preço volta a subir.
Alguns projetos-piloto vão ainda mais longe, introduzindo tokens energéticos locais com os quais as transações são liquidadas de forma quase instantânea.
Quem já está a testar isto
Vários projetos-piloto mostram que isto não é apenas teoria:
- Brooklyn Microgrid (Nova Iorque) é um dos exemplos mais conhecidos. Através da plataforma TransActiveGrid, construída sobre a blockchain Ethereum, os vizinhos de Brooklyn compram e vendem "créditos verdes" associados aos painéis solares dos seus vizinhos. Vale a pena notar que a eletricidade que sai da tomada continua, na sua maioria, a provir fisicamente da rede convencional, o que é efetivamente negociado é a propriedade registada da energia renovável, e não uma entrega física direta de eletricidade que contorne o distribuidor.
- Power Ledger, da Austrália, está a desenvolver uma plataforma que permite a negociação de energia P2P em vários países, incluindo a Tailândia e o Japão, onde as habitações trocam energia solar dentro do mesmo bairro. A empresa está também presente na Áustria, na Malásia, na Índia e nos EUA.
- Projetos europeus, como o projeto-piloto neerlandês em Eemnes e Amersfoort, onde o Ministério dos Assuntos Económicos dos Países Baixos concedeu uma isenção de dez anos à lei da eletricidade para um mercado com até 4.000 participantes, mostram que os reguladores da UE já estão a abrir espaço para este tipo de modelos, incluindo habitações, explorações agrícolas e empresas locais.
Embora se trate ainda de projetos em fase-piloto que envolvem comunidades de menor dimensão, o ritmo a que o número destes projetos cresce sugere que reguladores e empresas energéticas já não veem isto como mera ficção científica.
Vantagens e obstáculos
As vantagens são bastante tangíveis: as habitações com excedente de energia podem obter um melhor preço do que vendendo-o de volta à rede, os consumidores podem escolher fontes locais e renováveis, e todo o sistema torna-se mais resiliente por não depender exclusivamente de um único nó de distribuição centralizado.
Mas os obstáculos existem. O setor energético é fortemente regulado, e na maioria dos países ainda se está a definir como tratar as transações P2P de energia do ponto de vista fiscal e regulatório.
Há também uma questão técnica: as redes blockchain têm de processar um número enorme de pequenas transações rapidamente e com um baixo consumo energético da própria rede, algo que, historicamente, não tem sido o ponto forte de todas as soluções blockchain. Por isso, a maioria dos projetos-piloto recorre a arquiteturas blockchain "permissioned" (de acesso restrito), mais eficientes em termos energéticos, em vez de redes públicas como as que sustentam as principais criptomoedas.
O que isto significa no panorama mais amplo
Estas experiências revelam algo que vai além do próprio setor energético: a blockchain encontra cada vez mais aplicações fora do setor financeiro, sempre que é necessária uma troca de valor transparente e automatizada entre um grande número de participantes que não precisam de confiar uns nos outros à partida.
O setor energético, com milhões de contadores inteligentes que já geram dados, é um terreno de teste natural para pôr esta ideia em prática.
Se a negociação P2P de eletricidade se tornará o padrão nas cidades europeias dentro de uma década, ou se continuará a ser um nicho para cooperativas energéticas entusiastas, dependerá sobretudo do quadro regulatório e dos custos de infraestrutura.
Mas a direção é clara: a energia, tal como o dinheiro, flui cada vez mais diretamente entre as pessoas, com a blockchain a desempenhar o papel de contabilista silencioso em segundo plano.
